As coisas não têm de ser como são

O pediatra da minha filha alertou-nos na consulta dos dois anos para algum peso a mais - nada de muito preocupante para já mas uma nota para termos especial atenção e revermos as quantidades.

Tenho absoluto pânico que a minha filha seja "gorda" - palavra que absolutamente, sob nenhuma circunstância utilizo no meu vocabulário mas que chamo aqui por necessidade.

Fui uma criança gorda. 
Gorda aqui é ser amiga, porque ainda não se falava muito em obesidade infantil, mas com dez anos pesava mais quinze quilos do que peso agora, com trinta.
Não vou falar das implicações que isso tem na saúde - felizmente consegui perder grande parte desse excesso de peso - mas o meu medo, o meu absoluto pânico é que a minha filha passe por algumas das coisas pelas quais eu passei.

Qualquer pessoa que me conheça bem sabe que a minha memória funciona de forma estranha. Há coisas (mesmo as boas) que vivi e das quais não retenho nem uma fracção; há outras em que tenho todos os detalhes de cor. E isto não tem a ver - acho eu, nunca perguntei - com os anos que passaram entretanto, com memórias mais ou menos distantes no tempo. Funciona só de forma não muito coerente.

A minha memória é estranha - dizia eu - mas há três episódios de que não me consigo esquecer, de que me recordo mais vezes do que gostaria e que me voltaram a assaltar na consulta dos dois anos.

Sou uma criança feliz que tem pela primeira vez uma festa de crescidos, de uma amiga do irmão mais velho (que eu conhecia de aulas de dança). Vou com a minha mãe comprar a roupa para usar no dia - um sábado à tarde - escolho umas calças cinzentas e um camisolão largo amarelo mostarda com um astronauta. Apaixonei-me totalmente por essa camisola, ainda hoje me lembro dela. Vestia-a tão feliz e orgulhosa, aquele sentimento bom de quando usamos roupa nova pela primeira vez e nos sentimos bem. Quando entrei na sala, onde estavam à minha espera dois ou três amigos do meu irmão para irmos juntos, uma dessas amigas, a J., desatou a rir à gargalhada. A rir de troça, de fazer pouco, a rir descaradamente de mim, da minha figura, do meu amarelo mostarda num corpo demasiado grande para a idade.

Sou outra vez uma criança feliz a numas férias da Páscoa achei boa ideia seguir a sugestão das minhas vizinhas de passar uma semana num campo de férias. Vão várias pessoas conhecidas, algumas amigas, o meu irmão também vai, os nossos pais deixam e eu vou.
No primeiro dia, ainda mal chegamos, os dois primos das minhas vizinhas (que são as minhas grandes amigas naquela época) criam um mote para mim, uma frase com a qual me perseguiram toda aquela semana, que repetiram até à exaustão, dez, quinze, vinte vezes de cada vez que me vêem - e estou sempre a vê-los, afinal é um campo de férias, uma semana, e não temos para onde ir. Olham para mim e perguntam: "quantos barcos já afundaste hoje?" E riem. Sou gorda e aparentemente o meu peso afunda barcos. Ouço isto em repeat ainda hoje.

Há um outro dia em que duas amigas estão a andar de patins no espaço atrás de casa. Vejo-as da janela, queria que me convidassem para ir andar com elas. Secretamente vou calçar os meus patins e deixo-me estar na janela, flectindo os joelhos para não parecer tão alta (os patins dão alguma altura) e não descobrirem que eu já estou ali prontinha, só à espera que me chamem. Digo-lhes se calhar adeus, tento chamar a atenção. Quero muito, muito ser amiga delas, como elas são entre elas. Ao fim de algum tempo chamam-me. Vou feliz, radiante. Mudei de escola nesse ano, não tenho ainda muitos amigos, depois de a escola primária ter sido um tempo particularmente bom. Quero integrar-me, fazer parte. E elas chamaram-me, vamos ser amigas. Desci para descobrir que as crianças se sentem melhor se tiverem um alvo comum de gozo e que eu era exactamente esse alvo. "Achas que nós queremos ser amigas de uma gorda?"

A minha filha tem dois anos, tem a ingenuidade e a doçura de uma criança pequena. Não há maldade nenhuma no mundo, só há pessoas que gostam dela. Sei que irão tratar de mudar isso, que a vida à cruel por vezes, que não a vou poder proteger para sempre (eu gostava) e que apenas poderei fazer o que está ao meu alcance. No resto, não posso nada. Mas posso - e vou - evitar que tenha peso a mais e que um dia, lá mais para a frente, guarde memórias semelhantes a estas.

2 Coisas dos outros

  1. Este teu texto tocou-me de uma forma estranha.
    Preocupo-me muito com o peso das minhas filhas e tento que elas tenham uma alimentação saudável, muitas vezes contra a própria família que insistia em dar-lhe doces...
    Nunca fui uma criança gorda, pelo contrário, mais depressa era gozada por ser excessivamente magra. Mas, quando era pequena e mesmo já em adulta, sempre comi muitos doces e sempre tive uma alimentação descuidada. Fiquei com os dentes todos estragados e tive diabetes gestacional na gravidez, que se transformou numa intolerância à glicose. Consegui controlar os níveis de glicose com dieta e algum exercício.
    Por ter uma alimentação tão descuidada na infância sou muito disciplinada com isso em relação ás minhas filhas porque acho que, enquanto são muito pequenas é que podemos fazer alguma coisa pelos seus hábitos alimentares. E, quando os meus familiares me dizem "Deixa a miúda comer, tem muito tempo para se preocupar com o peso" fico possessa. Eu não quero que ela tenha que se preocupar com o peso nem com a saúde. Não, sem pelo menos fazer eu aquilo que posso fazer que é criar bons hábitos alimentares.
    Ler este texto reforçou ainda mais as minhas convicções. Obrigado por isso. Beijinhos :)

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  2. Trabalho com crianças todos os dias e sei o quanto elas podem ser cruéis quando vêm alguém que não se encaixa nos parâmetros estúpidos que são chamados de "normais". Acredito que tenha sido uma situação que te marcou. Tal era impossível não acontecer. E tal como escreveste, está ao teu alcance fazer o melhor pela tua filha.

    p.s. Texto brilhante!

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