O desejo de encontrar pérolas

A leitura está cada vez mais a voltar à minha vida e nem consigo dizer bem como isso me deixa imensamente feliz. Passei de uma adolescência onde lia, lia, lia; para tempos da faculdade em que todos os livros eram técnicos; para uma vida adulta em que conseguia ler um ou dois livros por ano e nas férias. Agora estou a ler religiosamente todos os dias antes de dormir e tenho sempre livros (neste momento quatro) em fila de espera. Terminei esta semana mais um (e já comecei o seguinte, havemos de lá ir) que veio da esperança de ser uma pérola (e não era péssimo, mas também não era bem).
Tenho aquela ideia romântica de que posso encontrar livros perdidos em feiras ou lojas, que são tesouros escondidos que ninguém leu mas verdadeiras obras primas dignas de Pulitzers. Por isso este ano na Feira do Livro do Porto (onde estive umas quatro felizes horas) encontrei este livro que me chamou a atenção pela capa (embora tenha lido a sinopse) e decidi trazê-lo pensando que podia ser essa pérola. É na verdade um livro que podia ser um gráfico, ora está tudo bem, depois piora; melhora, piora e andamos ali ao sabor da vida de quatro personagens principais que se encontram na pequena loja de Blosson Street e se tornam amigas. Um romance levezinho e simpático, sem grandes ambições de obra prima parece-me mas que se lê com gosto. Daqui passamos para o Nobel da Literatura (e com bastante curiosidade para o que aí vem), quase, quase convencidos de que valerá a pena re-abrir a categoria "Livros de 2019". Coisa boa!


Sobre a Eliete

Há duas grandes forças que me ficaram do Eliete (para além de - em bom português - a senhora ter uma panca gigante).

A primeira resulta do próprio texto e diz assim:

"Somos a nossa memória. A memória determina o que sentimos, o que sabemos, o que imaginamos, o que intuímos, somos a nossa memória e quando lhe perdemos o acesso, mergulhamos num vazio inimaginável, sem acesso à memória não poderemos saber dos valores morais que nos guiam, dos amores e dos medos, das ambições, dos erros e fracassos."

Esta ideia não se relaciona em praticamente nada com a história, é só um à parte, um detalhe, nem se quer diz respeito à personagem principal (embora por vezes ela também pareça que se esqueceu dos valores morais). Mas ficou-me porque me diz imenso. Na verdade grande parte de nos é memória, não exactamente do passado mas sobretudo do que somos, onde estamos, o que fazemos, quem conhecemos. Pensar que um dia podia acordar e não me lembrar da minha vida é algo verdadeiramente assustador. Por isso sim, acho que somos a nossa memória e o nosso passado e presente são infinitamente mais importantes do que o resto (embora andemos sempre preocupados com o futuro).

A outra força deste livro foi perceber que a Eliete é o estereótipo do insatisfeito sem causa. E neste caso talvez ela tivesse as suas razões (que nunca chegamos a saber) mas o que vemos é uma mulher casada, com filhos, emprego, casa, amigos e que em tudo apenas encontra defeitos. O marido é péssimo, o trabalho não presta, a relação com as filhas, do pior, os amigos cheios de coisas más. E não, não quer dizer que todos tenham de se satisfazer com o mesmo padrão de vida, mas há um segredo, que temos no nosso quarto em forma de mantra, que é perceber muitas vezes que já temos tudo o que precisamos, só é preciso dar-lhe valor. Por isso há um quadro na nossa vida que diz que o segredo de ter tudo, é saber que já se tem tudo. Ou saber dar valor. Claramente esta senhora não estudou essa parte da matéria (ou talvez eu estivesse menos insatisfeita se fosse explicada a razão) mas quanto a mim continuarei a repetir a máxima. Cada vez mais convencida que ser agradecida, estar grata, é uma bênção.


Livros de 2019

Em tempos muito distantes tinha uma rubrica de livros, onde ia publicando o que lia. Anos em que me sobrava tempo, naturalmente.

De há uns tempos a esta parte estou a retomar os hábitos de leitura e está quase a justificar-se um revival da rubrica, desta feita Livros de 2019.

Para já contamos com (ordem aleatória e com disclaimer de que a minha memória pode estar a deixar escapar algo),


Vou começar pela Eleonor porque terá sido o que mais gostei. Escrita super descontraída mas que me deixou agarrada à espera do final. Não sendo surpreendente (a pessoa está mesmo a ver que é o que vai acontecer), é um fim que se deseja. Amoroso!


Um cheirinho de uma vida absolutamente cheia e rica de um grande exemplo de mulher.


Benzi-me a considerei ler a Bíblia a seguir, mas com a vantagem do humor do Saramago. Não lia o autor desde a adolescência e foi bom o reencontro. Tão bom que segui depois para outro exemplar e... bom, já lá vamos.


A história é deliciosa e as descrições fofinhas, fofinhas. Mas fiquei imensamente desiludida com o final. Claramente faltava ali qualquer coisa.


Tenho imenso orgulho de ter lido Dostoiévski, mas não deslumbrou. É simplesmente uma história às voltas, que tem o mérito da descrição da desgraça de forma muito gráfica (às vezes até parecia que cheirava mal no ar, de tanta caracterização) mas que quanto ao resto, não adorei. Contudo, fazia falta no currículo, pelo que não me arrependo.


Fiquei triste com este. A premissa é genial mas o desenvolvimento deu-me muito sono muitas vezes. Não conquistou.


Estranho, acho que é o que me ocorre (nesta fase em que estou a meio).


Vale muito a pena. Gostei muito, muito e faz pensar sobre a estupidez com que tratamos os dias e o tempo. Totalmente actual, pese embora os seus quase cinquenta anos.


Muito, muito curiosa com o que aí vem (sendo que estou também a meio)





Crime e castigo



Por sugestão do Clube de leitura, "Crime e Castigo" foi o livro para lermos e partilhamos no início de Setembro. Significa que passei Agosto a namorar com o Dostoiévski e dizer sobre isto que foi mais castigo que crime.
Na data em que escrevo faltam-me 150 páginas e dois dias mas a opinião geral não é a mais favorável. Espero entretanto mudar de ideias e voltar mais tarde dizendo que entrou na lista dos favoritos.
Para já, lição importante, verão pede coisas mais leves e devia ter trocado a ordem dos factos. O despertar da menina Prim que li em Junho devia ter dado a vez ao Crime e teríamos tido mais alegria na vida literária. (Ou não, vamos ver quando acabar!)


E com isto, viram que que li dois livros nos meses de verão?
Yeah me!

Li um livro, aleluia, aleluia !

Adoro, adoro, adoro ler mas esqueço-me disto quase todos os dias. Este ano de 2019 li a bíblia dos óleos essenciais e absolutamente nada mais.
Até Março.

Em Março estive três dias fora e no regresso, sabendo que não tinha absolutamente nada que fazer nas duas viagens de avião que me separavam de casa, porque já tinha visto todo o meu telemóvel (imagens, fotos, sons) na ida, decidi comprar um livro no aeroporto. Melhor decisão de sempre.

O livro - um romance - é absolutamente delicioso e a Eleonor é aquela pessoa que queríamos ter conhecido. E o twist no fim? Muito, muito recomendado. E eu feliz de ter conseguido ler outra vez!