Escrevi um poema!

Acaba esta semana o concurso de escrita criativa que me acompanhou nas últimas cinco semanas. Todas as sextas-feiras recebemos um desafio de escrita a que tínhamos de dar resposta em quatro dias, recebendo depois uma avaliação e pontuação. Ganham os cinco melhores.
Nesta altura já sei que que não ganhei o concurso mas o que fiquei a ganhar com tudo isto foi tão imenso que nem me importo. A cada texto recebíamos uma avaliação personalizada, com comentários da formadora e fiquei tão feliz com tudo o que recebi, que só por isso já valeu a pena.
Depois, acho mesmo que saí da zona de conforto com muitos dos desafios e escrevi coisas que não escreveria. Em especial o poema, o último desafio. Quando é que eu escreveria poesia? Nunca!

Neste momento estou só a desejar que façam uma segunda edição para não perder o ritmo (e muito curiosa com a avaliação final global!)

Segundas-feiras

A segunda-feira é por definição (para mim) aquele dia pouco feliz em que geralmente estou de mau humor. Com cara e espírito de segunda-feira.
Desde que estamos em casa, este sentimento piorou drasticamente e alastra-se aos demais membros da família. É que agora a segunda-feira é aquele dia em que, como o sábado e domingo imediatamente anteriores, estamos todos em casa, parece tudo igual, mas é totalmente diferente. Vimos de dois dias de vida familiar dedicada à vida familiar, para - estando na mesma em casa como se nada tivesse mudado - passarmos para vida laboral. Em especial para as miúdas, acho esta mudança difícil. Num dia estão em casa com os pais e os pais brincam, vêem filmes, têm todo o tempo e é tudo bom e no dia seguinte estão na mesma em casa com os pais mas os pais não brincam nem vêem filmes porque não têm tempo, já que têm de trabalhar. E isto é estranho.

Por causa disto, a última segunda-feira foi particularmente caótica e passei o dia todo a berrar. Zangada, frustrada, irritada e sobretudo muito parva - que isto é mesmo assim, ninguém tem culpa mas eu tenho obrigação de me controlar. Foi no entanto um descontrolo. E que estupidez... Quando já estava tudo a dormir e baixou em mim a santa consciência, realmente percebo que fiz tudo mal e não se aproveitou nada do dia.

Salvo...

Por curioso que isto seja, tinha um desafio de escrita para entregar terça e até à véspera não tinha conseguido avançar se quer uma linha. Estava a ser demasiado difícil e tinha passado os três dias anteriores sempre com o assunto na cabeça, a correr em segundo plano. Quando me sentei pela décima quinta vez nesses dias para escrever, descarreguei toda a frustração de ter gritado tanto, desabafei tudo e submeti o texto. Recebi a classificação no dia seguinte e foi a mais alta até à data - no texto em que tinha menos fé, por incrível que pareça. 

Por isso, segundas-feiras são péssimas, estamos de acordo.
Mas é preciso ver o lado positivo de tudo. Primeiro, sublinhar que berrar é muito feio, manter a calma é necessário e ser o adulto é importante. Depois, elas não têm culpa, isto é difícil para todos e expressamos de maneira diferente. Por último, transformar o bom em mau, quem sabe escrevendo sobre ele. Se não for mais nada, é uma boa catarse. 

(Não obstante, graças a Deus que amanhã é sexta-feira!)

Ao 54º dia da quarentena

A partir de agora creio que já não se poderá falar de quarentena mas continuaremos em casa. Hoje, faz 54 dias.

Ao fim de 54 dias ainda gostamos uns dos outros e as minhas filhas estão apaixonadas. Apaixonaram-se uma pela outra e é um amor sem fim, com direito a tudo o que o amor tem, incluindo zangas e gritos. Um dia destes quiserem ficar as duas na cama da C., a I. do lado encostado à parede e a C. do lado de fora. De repente ela pergunta: "porque fiquei eu do lado de fora?" E responde imediatamente à sua própria pergunta: "ah, claro, já sei, foi para proteger a minha irmã de cair." Se isto não é amor...!

A I. já diz tudo e tem um piadão monumental. Criamos o "pérolas da I.", que é o sítio onde escrevemos tudo o engraçado que ela diz. Fala imenso, faz as falas do bonecos, adora a patrulha pata e emita todos os cães. Fez amizade com uma aranha bebé que passou em cima da mesa (blergh!) e está sempre a perguntar pela aranha, que "está la fora, tadinha da aranha". Tem medo do cotão das meias que fica preso nos dedos dos pés e acaba a boiar na banheira e temos de tirar logo porque nem se consegue sentar, tal o medo. Continua malandra e faz asneiras mas perdoamos-lhe porque tem graça.
À semelhança do que dizia há tempos uma blogger, está a crescer um pouco como uma erva daninha porque todos temos obrigações cá em casa (o trabalho, a casa, a escola) e ela é livre e desimpedida. O que faz com que às vezes sofra um pouco de falta de atenção mas estamos a dar o nosso melhor. Acho que o maior desafio é encontrar o equilíbrio.

A C. continua feliz da vida por estar em casa, com pais e irmã vinte e quatro horas por dia. Se a pequenina pede bastantes vezes para ir lá para fora para o pátio (ou mesmo "dar uma voltinha" ao quarteirão), a C. é preciso ser convencida a sair. Gosta das coisas, dos sítios dela, dos brinquedos. Em casa, está maravilhoso. Neste tempo já produziu pelo menos novecentos e setenta desenhos e espero no fim disto juntar todos e fazer um livro. Diário de uma quarentena em desenho. Não que ela expresse na arte qualquer manifestação de corona vírus, nem se lembra que isso existe; mas porque todos os desenhos têm corações, arco-iris, pessoas felizes e muita cor. A propósito de um desafio de escrita que tive, perguntei-lhe qual era a palavra que ela mais gostava no mundo e a resposta foi: amor. E isto diz tudo dela.

Já o P. balança nesta quarentena entre afirmar que "hoje vou ter um dia calmo" e "hoje o dia vai ser um caos" mas fica tudo só nas palavras porque todos os dias da vida dele são uma loucura. Entra no escritório às nove e sai as oito, para voltar muitas vezes depois de jantar. Está todo o santo dia em reuniões e o ritmo é alucinante. De vez em quando entra na sala para respirar cinco minutos e segue tudo outra vez, troca o disco e toca o mesmo. Desenhamos um cartaz que diz "já chega de trabalhar" que quando nos parece estar a ultrapassar os limites, colamos no vidro da porta do escritório. Mas não tem resultado. Venham as férias!

Eu continuo a fazer listas e regras e horários que procuro mesmo cumprir mas percebi que geram alguma frustração quando não consigo. Desenhei um horário com as aulas da C. e as horas livres e de trabalho, que naturalmente não se consegue cumprir com rigor, e acabo o dia frustrada porque ela devia ter estado a fazer actividades às três mas eu tive uma reunião e ela ficou a jogar consola. Estou sempre a tentar convencer-me que não faz mal, é mesmo assim, uns dias são melhores, outros mais confusos. Pelo menos até hoje nunca faltou sopa na mesa!

No campo das lides de casa, comecei a quarentena a querer limpar tudo de dois em dois dias e hoje percebo que foi uma loucura absoluta. Perdi dois quilos e é fácil ver porquê. Sentia imensa ansiedade com tudo e nem conseguia comer. Agora estar em casa parece normal (já lá vamos) e conseguimos afinar um calendário de limpezas que funciona melhor (e garante higienizarão!) Fazemos uma grande limpeza ao sábado ou domingo de manhã, onde tiramos todos os tapetes, aspiramos tudo, limpamos o pó, passamos esfregona em toda a casa, limpo as casas de banho, escadas, andar de baixo, dou um jeito aos vidros, mudamos camas, lençóis, etc. E depois durante a semana há um dia em que aspiro tudo e se limpa o pó, há um dia para as casas de banho e um para passar esfregona. Passar a ferro tem sido sempre que é preciso, deixou de haver dia fixo - mas nunca é menos de duas vezes por semana. A sopa é feita para dois ou três dias. As refeições faço todos os dias, almoço e jantar, com a variedade que a minha imaginação ainda permite mas sempre (sempre!) apoiada na ementa semanal que faço religiosamente. Todos os dias também, sem excepção, fazemos as camas, arrumamos roupa, brinquedos e mesas de trabalho. A organização (mínima, pelo menos) é essencial ao equilíbrio.

Ao fim de 54 dias estarmos os quatro em casa parece o mais fácil no meio disto tudo. Sair vai ser na verdade o grande desafio. Aqui sentimo-nos protegidos e a nossa vida é normal. Dá-mos abraços e beijos e não há distanciamento social nem etiquetas respiratórias. Somos sem preocupações desse nível. Enfrentar o mundo parece agora muito mais assustador do que estar preso e isto em si também assusta um pouco. As palavras de ordem são para lembrar que é um dia de cada vez.

Com três letrinhas apenas

De todas as coisas que sou, sem dúvida a que gosto mais e me faz mais feliz. 




O tema é: ...

Percebi que há um problema com a minha escrita (além do óbvio!) que é a incapacidade de subordinação aos temas. Vi o conto infantil do Pingo Doce, vi o concurso da Lello e não consigo aderir. Abro o word e fico a olhar para a página em branco, cursor a piscar, ideias a fugir. 
Sei que os escritores lidam com este problema da folha branca muitas vezes, como se fosse uma parede. E que, sendo escritores, o trabalho deles é justamente o de desbloquear essas limitações e avançar. Eu, não sendo escritora, poderia ter um talento natural ou conseguir ultrapassar essa parede com facilidade, mas não acontece. O tema é um conto sobre a quarentena e não me ocorre se quer meia ideia. O tema é uma história para crianças até sete anos, e eu até tenho duas, mas não me sai uma vírgula (na verdade houve um ano em que concorri mas perdi miseravelmente). De onde percebo que nunca vou ser escritora porque me falta o essencial, o mais básico: falta-me a imaginação. Eu sou mais ou menos capaz de relatar factos. Mas se tiver de os imaginar, de inventar, de criar situações, histórias, altos e baixos, já foi.

A esta inércia imaginativa, o meu homem contrapõe com um "isso é preguiça, tens de te esforçar". Mas para mim é difícil acreditar que a imaginação se trabalha, que é como um músculo que se eu trabalhar, trabalhar, trabalhar, irá dar frutos. Por isso na verdade talvez o primeiro desafio a vencer seja esse, acreditar que a imaginação é um abdominal e eu tenho de fazer pranchas de cinco minutos todos os dias - que vale dizer, sentar-me em frente ao computador a olhar para uma folha branca com o cursor a piscar.