Há alguém a quem devas um pedido de desculpa?

Gostava de não me lembrar tão frequentemente disto mas é quase diário.
Estou em falta com alguém. Fiquei em falta e agora é tarde.

Fez um ano que o meu avô foi internado.
Estávamos nas barraquinhas por alturas dos santos quando o meu pai ligou. Voámos para o hospital mas eu fiquei ali, à porta.
Inicialmente esteve nos cuidados intensivos mas acabou por ir para um quarto, à espera da cirurgia que nunca devia ter feito. Partilhava-o com mais duas pessoas e podia receber visitas. Toda a gente foi visitar o meu avô. Toda a gente menos eu. Os meus tios, os primos, até os mais pequeninos. E eu fiquei só com a imagem da janela do quarto dele e da minha tia a dizer-me adeus cá para baixo.
O meu avô esteve internado e perdi-o no hospital sem que o tivesse ido ver, sem que me tivesse visto, sem que soubesse que eu estava ali, à espera dele, a pensar nele. Perdi o meu avô à porta do hospital e para ele eu devo ter sido a neta que não o foi ver na única altura, na pior altura, em que precisou verdadeiramente.
Fiquei em falta com o meu avô. Fiquei em falta e agora é tarde. Já não tenho tempo de pedir desculpa.

Há um ano atrás eu estava grávida e ninguém me deixou entrar no hospital.
Eu achava que acabaria por ver o meu avô em casa. Não me impus como devia, não exigi, não entrei pelo hospital dentro. Fiquei à espera, à porta. O meu avô não voltou para casa, eu não me despedi e todos os dias desde há um ano sinto o peso de saber que lhe falhei.

2 Coisas dos outros

  1. Não é uma situação que te devas culpar. Estava fora do teu controle adivinhar, não te censures!
    Segui!
    NOVO POST http://fancyattack.blogspot.pt/2015/07/escapeshoes-calcado-para-festivais.html

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  2. :(
    Fizeste-me relembrar a minha avó. Ela a uma dada altura foi internada, situação essa que já se tinha verificado várias vezes antes infelizmente. A minha mãe avisou-me cerca das 23horas. Disse ela que o melhor era pensarmos que iria ser como das outras vezes: poderia temer-se o pior mas certamente ela iria safar-se. Desliguei o telefone e decidi ir vê-la ao hospital mesmo já sendo tarde e temendo que não me deixassem entrar nas urgências. Efetivamente ao início não me queriam deixar entrar. Já era quase meia noite, as urgências estavam um caos mas (milagre) acabaram por me deixar. Vi a minha avó, não consegui perceber se ela me reconheceu ou não. Mas a verdade é que aquela foi a última vez que a vi com vida. Se tivesse ficado em casa, no dia seguinte já iria ser tarde demais.
    No teu caso, houve condicionantes exteriores a ti. Eu percebo a mágoa. Fica sempre, se fosse comigo também iria ficar sempre essa sensação de estar em falta para com o teu avô.
    Mas também quero acreditar que ele sabe que estando tu grávida, o melhor foi resguardares-te. Ele sabe disso, Cisca. Um grande beijinho*

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